“Sem dúvida o vestir obedece ao familiar requerimento de higiene, decência, e adorno.”

(Pio XII, 8 de novembro de 1957)

Na frase de Pio XII que inicia este texto, está em destaque a palavra “adorno”, pois ela é importante para entender o que será tratado. O adorno é “(…) uma necessidade inata, sentida mais pela mulher, de melhorar a beleza e a dignidade da pessoa…” (8 de novembro de 1957). De algum modo nós todas sabemos disso, mas nem sempre acertamos na prática, pois realmente não é fácil discernir as modas que melhoram nossa beleza e dignidade daquelas que rebaixam nossa pessoa.

Também outro problema surge quando tratamos deste assunto: numa época igualitária e liberal como a nossa, foi difundida a ideia de que nossas escolhas são livres de qualquer critério e que não são piores nem melhores que as de ninguém, são apenas as nossas escolhas. Assim, em todos os âmbitos – religioso, moral, político, artístico – a ideia de que podemos tomar decisões totalmente subjetivas ganhou uma dimensão nunca antes vista. Mas, a moda sofreu e sofre particularmente com isto: se houve um campo da vida humana em que esta ideia foi aceita quase que universalmente foi no campo da moda.

Para nós, que descobrimos a modéstia e decidimos adotá-la como norma de vida, uma coisa ficou estabelecida: a moda não pode revelar nossos corpos. Mas, apesar disto, não estamos livres da confusão… podemos achar então, que se a roupa cumpre este principio (de cobrir nosso corpo), no restante estamos livres para escolher das roupas mais delicadas e alinhadas às mais extravagantes e desleixadas; afinal, isto é apenas uma questão de “gosto”.

Gosto? …

Mas será que estamos certas em considerar o assunto desta forma? E de onde vem o nosso gosto? É ele assim tão pessoal, tão nosso, tão livre de ideologias? Será que o gosto também não pode ser “formado”, será que o gosto não conhece regras? E Pio XII, que tanto tratou da modéstia, não teria ainda uma palavra sobre isto?

Segundo Santo Tomás, “(…) ornamentar a si mesmo também se torna um ato da virtude da modéstia, que influencia o modo de andar e de se portar, o modo de vestir, todos os movimentos externos” (citado por Pio XII em documento de 22 de maio de 1941). Ornamentar, então, de acordo com o Doutor Angélico é um ato de modéstia; e ornamentar, como diz Pio XII, é “melhorar a beleza”: leva em conta, portanto, o gosto.

O adorno a que se refere Pio XII não é qualquer adorno nem poderia ser, visto que se assim o fosse voltaríamos novamente ao critério pessoal. Então, o adorno de que aqui se fala tem como “objetivo… melhorar a beleza moral da pessoa” e assim “o estilo do vestido seria quase como um disfarce para a beleza física na sombra austera do ocultamento, distraindo a atenção dos sentidos, e concentrando a reflexão no espírito” (8 de novembro de 1957).

Interessante o Santo Padre afirmar que o adorno precisa melhorar a beleza moral da pessoa: é uma questão de dignidade! Uma questão profunda que nos faz perguntar: por que soaria estranho uma mãe de família ir às compras usando uma pesada jaqueta de couro? A peça é símbolo de alguns grupos da sociedade vistos como transgressores – e a própria migração desta jaqueta (peça masculina) para o guarda-roupa feminino redobra o aspecto transgressor, para além de estar vinculada a uma sub-cultura rock. Da mesma forma, se a mesma mãe de família for à reunião escolar usando as peças mais surradas que ela veste para fazer as faxinas, por exemplo, algo nos comunica imediatamente que lhe faltou zelo. E os santos – mesmo os mais simples e humildes – sabem que também fere a modéstia se vestir pior do que aquilo que temos condição. E tudo isto porque quando dizemos “mãe de família” a expressão carrega tal dignidade que mesmo a mais pobre das mães é nobre e, portanto, deve fazer juz a tal posição: pois, aos olhos de seus filhos e marido, ela realmente é uma rainha e reina no seu lar.

Assim, ao critério moral da veste junta-se o critério de adorno no sentido de revelar a pessoa moral e espiritual e velar a pessoa física. Obviamente, como a Igreja é sábia e reconhece o valor do corpo, o adorno não tende a fazerdesaparecer os atributos físicos, mas sim deixá-los transparecer discretamente, de modo que não atraíam tanto que seja o motivo primeiro para a aproximação das outras pessoas, como disse Pio XII.

Outra verdade muitas vezes esquecida é recordada pelo Santo Padre: “Entre os elementos objetivos que concorrem para fazer com que um estilo seja imodesto,está em primeiro e principal lugar, a má intenção de seus fabricantes” (8 de novembro de 1957). Contrariando os que propagam que certas peças de roupa seriam neutras, cabendo apenas a quem faz uso definir se moralmente é bom ou ruim usá-las, Pio XII afirma que existe uma intenção anterior (o que é até óbvio): a de quem fez a roupa.

Como uma moça honesta pode escapar da mini-saia, uma vez que ela pode não conhecer as recomendações práticas da modéstia cristã (que seria usar uma saia que fosse pelo menos abaixo dos joelhos, por exemplo)? Ora, Pio XII nos dá a resposta: a intenção do fabricante; isto é, como se apresenta a publicidade desta peça? Como se comportam e pensam as pessoas que a usam? Que juízo de valor moral se percebe na sociedade com relação a esta peça? Com efeito, apesar dos já 50 anos de existência da mini-saia, ainda é possível sentir as mesmas intenções indecentes, que criaram um novo estilo de vida para a mulher moderna, como apontou o Monsenhor José Luiz Villac.

A sobriedade é outro valor apontado por Pio XII para a escolha do estilo das roupas. Nisto, o Santo Padre continua a tradição bimilenar da Igreja, sintetizada nas palavras de São Paulo: “Do mesmo modo, quero que as mulheres usem traje honesto, ataviando-se com modéstia e sobriedade” (I Tim 2, 9). Neste sentido, discursando aos estilistas e desenhistas, o Papa diz: “A moderação, acima de tudo, deve oferecer um padrão pelo qual regula, a todo custo, a gula pelo luxo, ambição e caprichos. Os estilistas, e especialmente os desenhistas, devem se deixar guiar pela moderação ao desenhar o corte ou a linha de uma veste e na seleção de seus ornamentos, convencidos que a sobriedade é a qualidade mais fina da arte” (8 de novembro de 1957). E, dando continuidade a este pensamento, Pio XII indica em que padrão os profissionais da moda deveriam se basear: “Longe de querer um retorno à formas superadas pelo tempo – apesar de que estas com freqüência reaparecem nas modas como novidade – mas apenas para confirmar o valor perene da sobriedade, Nós gostaríamos de convidar os artistas de hoje a fixar-se, nas obras-primas da arte clássica, em certas figuras femininas de indiscutível valor estético, em que o vestido, marcado pela decência cristã, é ornamento digno da pessoa, cuja beleza se funde como um único triunfo de admirável dignidade” (8 de novembro de 1957). Obviamente, existe um matiz nesta sobriedade, que nos jovens procurará roupas que “… tenham a atração e o esplendor que cantam os felizes temas da primavera da vida, e que facilitam, em harmonia com as regras da modéstia, aos pré-requisitos psicológicos necessários para a formação de novas famílias. Ao mesmo tempo, aqueles com idade madura buscam obter a partir de roupas apropriadas uma aura de dignidade, seriedade, e serena felicidade” (8 de novembro de 1957). Mas, ainda que os jovens procurem temas mais alegres, isto não é nem pode ser sinônimo de extravagância ou de descaso consigo mesmo, que é a mensagem que tantas roupas atuais feitas para a juventude procuram passar. A mensagem geralmente é de despreocupação e de “perder a juventude na diversão”, enquanto que o Papa direciona a alegria dos trajes dos jovens para um fim muito alto e santo: alcançar, por meio de um vestuário adequado, a formação de novas famílias.

Mas, se as roupas feitas para os jovens atualmente costumam não condizer com o fim santo que eles devem buscar para as suas vidas, o que dizer então do fenômeno que vem ocorrendo, de pessoas maduras que cada vez mais procuram parecer com os jovens da moda descompromissada e irrefletida? Pois, com Pio XII aprendemos que uma senhora, casada, mãe de família, deve vestir roupas que reflitam a sua idade, sua posição na sociedade, sua classe social, enfim, a sua vida como um todo… mas, se vemos cada vez mais as senhoras arrogarem para si o direito de vestir-se como eternos jovens, sem grandes preocupações na vida, como se ainda estivessem livres de qualquer séria obrigação, como se não dependesse delas a educação dos filhos e a edificação do esposo, o que esperar das gerações formadas por elas? Se as mães se vestem como adolescentes, como estes se vestirão?

Pode parecer que as perguntas acima têm apenas uma finalidade retórica, mas Pio XII nos prova que não. Foi ele quem nos disse que “através das roupas [a sociedade] revela suas secretas aspirações e usa-as, pelo menos em parte, para construir ou destruir o futuro” (8 de novembro de 1957).

A calça jeans é exemplo notável disto. Não são apenas os religiosos que o dizem, mas os próprios profissionais e estudiosos da moda: esta peça é um símbolo de igualitarismo, de indistinção de geração, sexo, classe social, hierarquia familiar. O velho, o jovem e a criança a usam sem maiores constrangimentos; o homem e a mulher; o rico e o pobre; a mãe e o filho… Certa estudiosa disse que, antes do jeans, existia uma nítida passagem da infância para a vida adulta: a mudança das calças curtas para as calças compridas. E a mesma estudiosa completava: atualmente esta distinção desapareceu, pois desde os primeiros dias a criança já é vestida pela mãe com uma calça jeans comprida… e isto, segundo ela, é sintoma da crise nas relações familiares: as crianças já não conhecem a infância, se introduzindo no mundo adulto com uma facilidade até então inimaginável. Certamente, as roupas não são o único nem o primeiro fator de crise na sociedade, mas como disse Pio XII, elas revelam as aspirações secretas da mesma.

Finalizando, voltamos às perguntas que deram o mote para o texto. A ideia de que o gosto é particular, subjetivo e que não admite critérios objetivos, como o prova Pio XII, é equivocada. O gosto deve ser formado, por isto Pio XII disse aos modistas: “As pessoas querem ser guiadas no estilo mais do que em qualquer outra atividade. Não é que elas não tenham um senso crítico nesta matéria de estética ou de honestidade, mas é que, às vezes dóceis e outra vezes preguiçosas demais para fazer uso desta sua faculdade, elas aceitam a primeira coisa que lhes são oferecidas e só mais tarde se dão conta de o quão medíocres ou indecorosas certas modas são” (8 de novembro de 1957).